A letra treme, como treme minha mão, fugindo do frio que faz no quarto…
Quarto esse onde tudo aconteceu…
De início não sabia para onde ir. Todos tinham ido embora para casa mas, por um problema no bilhete do meu vôo, eu fiquei, por mais algumas horas. Uma noite a mais em Curitiba, na verdade.
Cheguei e ainda era dia. O hotel na esquina de uma rua pouco movimentada me parecia estranho, desde longe. Se já não tivesse sido estranho o suficiente chegar até lá num ônibus lotado de uma cidade que eu não conhecia nada nem ninguém. Cinquenta reais o quarto. Era isso ou gastar todo meu dinheiro por uma noite bem dormida e não ter como voltar ao aeroporto no dia seguinte.
Entrei…
O moço do balcão era gordo, tinha bigode e uma camisa azul clara desbotada. Foi levemente simpático. Levemente amedrontador. Último andar de um prédio velho, que só subia de escadas. Corredor iluminado pela luz da grande janela lateral. Vazio.Meia dúzia de portas. Alguns barulhos vinham do último aposento.”Quarto 32”. Abri a porta.
A primeira sensação era de alívio. Era a primeira vez que via uma cama após sete dias dormindo numa barraca de camping molhada de chuva e no frio. Tinha sido, porém uma semana boa, uma semana longa. Fechei a porta. Arrumei as coisas na cama e sentei. A janela entreaberta deixou escapar um vento gelado da rua. 14º. Não sei se foi medo ou frio, mas tremi.
O quarto tinha duas camas, se é que podiam ser chamadas assim. O banheiro tinha janela para o corredor. O frigobar estava quebrado. Era usado de mesinha e tinha uma bíblia, uma lista telefônica de 1996 e um controle remoto sem pilhas. Ao menos a TV funcionava.
Um scotch seria uma boa pedida, pelo frio ou para amenizar a sensação de medo. Na verdade qualquer bebida que me mantivesse ocupado em fugir da realidade aquela hora era bem vinda. Desejei um cigarro. Não que eu fume, mas poderia me manter mais calmo. Eu precisava relaxar.
Deitado, observava o balançar infinito da chave na porta, o barulho dos ônibus na rua e os estranhos ruídos no corredor. Queria não estar sozinho. Dividir o medo poderia ser a melhor das alternativas. Queria que o chão nao fosse tão gelado e que aquela angústia, pós banho e escondido embaixo do que era chamado de cobertor naquele lugar, passasse o mais depressa possível.
Tive febre de madrugada.
Era domingo. As horas congeladas com o frio do quarto eram observadas incessantemente até o último segundo que me manteria alí…